Saturday, January 16, 2010

Turbilhão


Sigo sozinha ao vento ouvindo apenas o turbilhão do meu pensamento. Já não sei onde estou. Já não sei o que se passou. Sei apenas que sigo sozinha ao vento e nem vivalma me vê. Para quê? Para que foi que até aqui vim?

Ando e corro mas nem vivalma vejo. Será que alguém me vê a mim?

Tuesday, January 12, 2010

Nunca mais


Não mais terei o amor incondicional que personalizavas. Não sentirei outra vez o calor constante de saber-me abrigada de todo o mal. Jamais conseguirei preencher o vazio que ficou na vida, na rotina, no ser. Não serei mais nada além desta carcaça que conta os dias e os divide em horas que reparte por minutos, sentindo cada segundo que passa... uma eternidade de segundos que passaram desde que ouvi pela última vez a voz e senti pela última vez o odor quente a mãe. Até no nosso último momento me protegeste. Até no nosso último momento foste a mãe e eu a menina. Três anos e três semanas... quantos segundos são?

Anjo Azul

Serias tu o anjo azul que iludiu a minha menina e acariciou o meu fim de dia? Quem me dera acreditar...

Wednesday, October 21, 2009

E se um dia a vires por aí...

dá-lhe um abraço meu, um beijo meu, um sorriso meu e cuida dela.
Se um dia a encontrares por aí, por onde seja, quando seja, talvez envoltos por uma brisa de Verão, recorda-a que a vejo por onde passeiam os meus pensamentos. Se, por acaso, te cruzares com ela... bom, se por acaso te cruzares com ela nem sei o que quereria que lhe dissesses primeiro.

Tuesday, July 28, 2009

o pai

Aprendi a amar o meu pai, incondicionalmente, independentemente das voltas que as nossas vidas dão. Aprendi a compreendê-lo como diferente de mim e tão parecido nalgumas coisas. Aprendi que o tenho para sempre, tal como te tenho a ti. Aprendi que me ama, que sou sua, que me guarda consigo, que me quer bem, que me acarinha como consegue, de forma diferente da tua mas ainda assim é carinho, eu sei. Aprendi que o que nos une é suficientemente forte para eu conseguir abstrair-me do que nos rodeia e de quem nos rodeia. Percebi a tentativa alheia do enfraquecer da nossa relação, percebi o interesse externo no segredo do nosso distanciamento. Pois bem, não estou disposta a abdicar dele por qualquer conforto que possa ter, tal como não abdicaria de ti. Também percebi que perdi muito tempo e imensas oportunidades, tal como contigo.
Aprendi a ler-lhe nos olhos a tristeza que esconde na rudeza do trato. Aprendi que sou parte dele para sempre e, mais ainda, percebi que quero ser. Aprendi a amá-lo como o único pai que queria ter. Aprendi que a consistência dos sentimentos me dá mais tranquilidade que a volatilidade das expressões.
Percebi o que sempre me disseste... finalmente percebi, embora sempre te tenha dito que já sabia. Finalmente perdoei, mãe. Só lamento não poderes estar aqui... não sabes a falta que nos fazes.

Wednesday, July 8, 2009

A menina quer ser astronauta...

... e finalmente descobri porquê.
Aos 2 anos, empertigada e senhora do seu nariz ela queria ser bombeira. Fantasia, pensei eu. Pouco antes de fazer os 3 aninhos pensou em ser médica e assim mo disse. Perguntei: - Mas já não queres ser bombeira? Ao que me respondeu: - Quero ser bombeira mas também médica! Fantasia, pensei eu.
E durante um ano assim foi. Perto dos 4, contou-me espontaneamente: - Eu quero ser é astronauta, ir para o espaço, sair da nave e voar. Inquiri: - Mas não tens medo, amor? Disse-me que não, que se viessem extra-terrestres entraria na nave e viria logo para casa, que faria equipa com a melhor amiga e voariam pelo espaço. Convidou-me a fazer parte da tripulação, tranquilizando-me com a sabedoria da equipa e por não corrermos qualquer perigo se nos mantivéssemos juntas. Ficou irritada quando lhe disse que teria medo de voar e que preferia ficar em casa. Disse-me que tinha de vencer o medo, que ela me protegia e me traria logo para a Terra se surgisse algum problema. Que irritada ficou! Pensei, mais uma fantasia e a teimosia de sempre. Mas manteve-se astronauta, viajante do espaço, firme na sua decisão. Dizia que tinha de estudar para conseguir, que tinha de saber conduzir a nave e o que faziam os botões da mesma. Continuava eu a pensar, fantasia de menina. E, de vez em quando, afirmava que queria ser médica e astronauta. Mais médica para os outros que a escutavam e, mais astronauta para mim, a sós... queria tratar pessoas e voar no espaço. Chegou a dizer-me que o objectivo era conhecer novos mundos e descobrir os espanhóis! Hilariante fantasia de criança com imaginação fértil, pensava eu. Mas há uma semana explicou-me a sua rotina de astronauta. Explicou-me em casa dos meus avós, dos teus pais, qual era o plano final. Mais ainda, explicou porque razão eu deveria perder o medo de voar na nave com ela, e sair da nave no espaço para voarmos cá fora, sem gravidade. Então disse, por palavras que só ela sabe, que voaríamos no espaço e depois pararíamos a nave. A sua melhor amiga ficaria dentro a tratar de tudo enquanto nós as duas saímos para o espaço onde, sem peso, flutuávamos. Era então, nesse espaço, o Céu a seu ver, que encontraríamos a vóvo Nôno. Esticaríamos as mãos até a alcançarmos e depois abraçar-nos-íamos as três. Nessa altura entraríamos de novo na nave, não duas mas três e traríamos a vóvo de novo para a Terra. Simples, não é? Afinal de contas a tecnologia tem a resposta! Se o Céu é onde estás, porque não ir buscar-te em vez de esperarmos a nossa vez?

E este foi o momento em que ela para mim já era uma astronauta. Nada nela é acaso e eu estou longe de saber a profundidade do meu tesouro... mas vou tentando, encantada.

Wednesday, June 17, 2009

Como uma pedra

Ando dura como uma pedra, enraivecida por dentro, dura por fora. Até as palavras dificilmente me saem dos lábios de tão dura que estou. Cedi perante este ambiente duro, este habitat estranho sem sentimento, cedi após a rejeição do Mundo que desejei desesperançada. Agora dura sou, dura acto, dura sinto pouco, duramente exprimo o que duramente penso e assim vou, neste piso duro em direcção a um duro futuro, vazio de sentimento. Nem uma carícia, nem um beijo sentido, nem um abraço envolvente. Nada disso, além dos da minha flôr. Nada tenho desde que foste, nada me foi oferecido nem julgo merecê-lo. Sou eu, um organismo ambulante, sou uma operária da engrenagem desensibilizada, uma peça para fazer a sociedade rolar. Nada mais e dura continuo. Sem carícias, sem beijos, sem abraços impedindo-me de sentir a falta de ser o Mundo de alguém, já que o único alguém para quem alguma vez fui o Mundo não mais me abrirá uma porta.