Tuesday, February 12, 2008

Sonhei contigo...

Sonhei contigo... e foi como se nunca me tivesses aqui deixado. Esta noite sonhei contigo! Estiveste comigo, no escuro do quarto em horas de confusão entre insónia e sonho. Estiveste comigo e conversámos baixinho nas horas em que julguei estar acordada e afinal dormia. Sonhei que falaste com a tua voz de mãe, calma, serena e confiante. Falaste comigo como se nada tivesse acontecido, falaste com naturalidade e paz, conversámos sobre a Inês e como anda endiabrada. Falaste comigo como se nada fosse e respondi-te da mesma forma... e só de manhã me apercebi do extraordinário da nossa conversa... já que não tinhamos nenhuma há mais de um ano. Sonhei contigo, mãe, mas sonhei contigo tranquila, sem ansiedade nem estranheza, sonhei contigo como tu eras, a minha mãe.
De manhã tive de te ir visitar. Acho que precisava de deixar de pensar no sonho e constatar a realidade do pesadelo. Mantens-te lá debaixo daquelas malfadadas pedras, mantens-te inerte, não me respondes quando lá estou... não me respondes como no sonho... lá não ouço a tua voz. E então, não consigo deixar de pensar que estiveste comigo esta noite, não consigo. Só me apetece voltar a adormecer e esperar que venhas conversar comigo outra vez. Vens? E da próxima vez, por favor abraça-me! Não sabes as saudades que tenho do teu abraço... Ai, que saudades!
Este sonho foi um presente, o melhor que poderia ter tido hoje... faz hoje 4 anos que fui mãe e tu, avó. Faz hoje 4 anos que olhaste para a Inês, que deixei de ser "a menina", que mais uma vez me amaste e mo fizeste sentir com todo o calor que emanava do teu olhar e do teu toque... e já passaram quase 14 meses desde que o calor não voltou a mim... cada dia estou mais fria.

Tuesday, January 15, 2008

Lealdade

Porque o tempo passa por nós e já não por ti, porque foste onde nos e impossível alcançar-te, porque partiste cedo e nos deixaste imcompletos, porque tudo ficou por dizer no curto espaço de tempo que tiveste, porque o meu amor foi modificado mas não interrompido, porque a falta que me fazes é diária, porque fecho os olhos e vejo o teu rosto, porque me deito sozinha e penso em como te aconchegavas em mim quando era pequena, porque foste o que de mais leal tive na vida... não posso deixar de me sentir destroçada com o que aconteceu com a tua imagem, com a tua memória, com o que era suposto ser sentido mas não foi. As mentiras que deixadas na tua campa foram rapidamente descobertas e passaram de conforto a desilusão e de desilusão ao total isolamento. Subitamente deixei de ser alguém, subitamente tornei-me numa formiguinha à face da Terra à espera que me pisem.
Afinal de contas não somos nada, nada. Não foram suficientes anos os que viveste, os que trabalhaste e principalmente os que amaste e cuidaste para seres inesquecível e intocável. Não foram suficientes os sacrifícios que fizeste, o tempo que cedeste, a vida que partilhaste para merecer lealdade. Pelo menos lealdade... Esperei que pelo menos houvesse para contigo lealdade. Mais uma vez, falhei.

Sunday, December 23, 2007

Num ano tudo mudou...


Passou um ano e tudo mudou: o frio tornou-se mais frio, o calor menos quente, o sol já não brilha e o sorriso exige esforço; o abraço já não abriga, o beijo nunca mais trouxe o teu cheiro, a casa já não é lar. Tudo mudou: as saudades são cada vez maiores, o pesar de saber que NUNCA MAIS te vou ver é crescente e sinto-me cada vez mais isolada, mais só, mais pequena, mais triste. Tudo mudou desde que há um ano deixei que a terra te engolisse e fiquei petrificada a assistir ao desmoronar do meu mundo.

Friday, November 30, 2007

Vou chorar

Hoje vou permitir-me chorar. Vou escolher um canto frio e escuro e vou permitir-me afundar nesta tristeza e solidão em que tudo se tornou. Vou aquecer-me nestas lágrimas e lembrar-me uma vez mais de ti, de te ver sorrir e do calor que sentia sempre que me aproximava do teu corpo, sentindo já a tua alma. Hoje vou permitir-me chorar, vou fazê-lo com gosto, vou gozar este pranto que me humaniza de novo e faz perder a carapaça que arrasto comigo. Vou chorar, sim, vou mesmo, vou chorar e gritar para dentro esta angústia de finalmente acreditar que não mais te vou ver. Sim, vou chorar, vou chorar com fervor, vou perder a compostura de quem quer ter o poder de controlar o incontrolável, o decorrer de uma vida que se sente estar a perder. Vou ficar aqui fechada na minha dor, nesta casa sem calor, neste canto onde nada me toca a não ser a loucura de saber-me para sempre perdida, sem um abraço nem amor. Vou chorar os dias que desperdiço, que não vivo nem sinto, os dias que correm tão secamente que já nem os conto. Vou chorar tudo o que me apetece e ninguém cá vai estar para sequer me ouvir.

Saturday, November 10, 2007

o peso do Mundo


Ando com o peso do Mundo aos ombros, não tenho quem o reparta comigo agora. Há muito tempo que o carrego mas agora sinto-o em cada célula do meu corpo. Ando com o peso do meu Mundo aos ombros e com a menina pela mão, a que olha para mim como se fosse super-mulher e segue a meu lado acrescendo o peso mas aliviando a dôr. Receio não a conseguir iludir o suficiente e deixá-la por vezes receosa de que o peso recaia sobre nós. Não finjo o suficiente e é ela quem mais testemunha os meus momentos de fraqueza. Este peso que assenta sobre os meus ombros sempre cá esteve mas foi temporariamente suprimido pela tua força, pelos teus ombros, pela segurança com que vias o meu futuro. Não há certezas agora, não há certezas em relação a nada, o que era incerto mantém-se e o que era certo já não o é. Certa estou de que enquanto viva carregarei este peso sobre os ombros e só mesmo o tempo o poderá aliviar.

Sunday, October 7, 2007

O que nos espera?


Ainda não consigo perceber o que nos espera. Vamos vendo os dias passar... as saudades ficam, intensificam, mortificam. Hoje foi ela que me explicou como as coisas são, não resistiu às minhas lágrimas, confortou-me na sua sabedoria de criança, na sua inocente esperança, na candura de quem nada sabe. Foi ela que me confortou pela perda que trago no rosto permanentemente... não consigo vê-la sem te ver a ti. Hoje foi ela a forte e assertiva, a cuidadora e protectora, foi ela que me abraçou e acarinhou, foi ela que preencheu o teu lugar. E eu não sei o que nos espera, ergo o queixo e sigo em frente, nada me arrasta, nada me prende, tenho vida, saúde e uma menina fantástica. Sigo em frente mas ainda não sei para onde, sigo em frente sem certeza de um destino seguro... sigo em frente porque tenho de seguir mas as nuvens não me deixam ainda ver onde vou... nuvens ou lágrimas que ainda me deixam a vista enevoada. Sei que parar não posso por ser o único meio de me manter crente de um dia melhor adiante, de um futuro melhor, de um ninho igual ao que tive contigo, de um Mundo mesmo meu que me acolha como mulher sem me impedir de ser menina também.

E, ainda não consigo perceber o que me espera, o que nos espera, o que vai acontecer... mas a tua força chega a mim de vez em quando e a ideia de te deixar feliz move-me todos os dias. Amo-te, mãe! (e tenho tantas saudades tuas!)

Saturday, September 29, 2007

Alguma coisa mudou, algo aconteceu...


O que foi que aconteceu? O que foi que mudou em mim? O que foi que provocou em mim a tua partida que me sinto não só perdida mas, como nunca encontrei-me a mim e só em mim confio. Alguma coisa aconteceu, algo mudou cá dentro, não consigo viver de frivolidades, de pessoas pequenas e simples, de prazeres mundanos e tristes. O que aconteceu? Porque é que procuro a grandiosidade? Porque é que deixaste em mim a fome de queres ser mais, fazer mais, ser tão melhor que me sinto numa inquietação tremenda? Porque é que nunca estou satisfeita com nada? Porque é que vivo de planos que me tornam tão diferente... tão dura? Porque é que agora só o horizonte parece ser satisfatório estando tão longe? Porque é que me parece nos tempos de acalmia que sem ti nunca mais estarei em paz e sempre procurarei mais e melhor, unicamente porque tenho algo que não está a ser preenchido nem o será. Apetece-me saltar para a frente com a menina nos braços e deixar a "tua menina" para trás. Para quê ser a tua menina se cá não estás? Para quê ser quem era se não me vais abraçar nem acolher? Para quê ser eu se eu sofro? Para quê cá ficar se sinto a tua falta em cada canto que visito? Para quê? Para quê? Porquê? Porquê? Quero partir, quero começar de novo, quero sentir que sou um pouco mais de ti e muito menos de mim... que sou mulher e mãe e não uma menina, que sou forte e robusta em vez de franzina. Quero ser mais e tenho de o ser uma vez que já não te tenho aqui e o tempo não parou para mim, nem está a abrandar.