Cresce em mim a ansiedade de ver chegar outro aniversário teu. Devias fazer 53 anos. Eu devia estar ansiosa com a tua prenda, aliás, com as tuas prendas. Quantas vezes me lamentei pela teu aniversário ser invariavelmente seguido pelo Dia da Mãe? Quantas vezes tive de puxar pela criatividade para poder ter dois embrulhos de que me orgulhasse em tão pouco espaço de tempo?
Agora apenas posso lembrar-me de ti, ainda mais fervorosamente, nestes dias. Agora lamento não ter ninguém a quem oferecer as minhas prendas. Agora lamento a ausência de significado do Dia da Mãe, já que não me considero ainda digna de tal, nem me quero comparar a ti... sou uma sombra do que foste e do que eu poderia ser.
Lá se aproxima o teu dia e eu sem nada para fazer senão continuar à tua espera. Vou pensar em ti e mais uma vez me interrogarei porque tardas.
Saturday, April 26, 2008
Sunday, March 16, 2008
Dor aguda

É aguda a dôr que sinto no meu peito, é aguda e perturbadora. Surge inesperadamente, associada a uma imagem de ti, uma canção, um cheiro, uma sensação. Surge assim subitamente e depois não parte e deixa-se ficar prolongadamente. Surge em qualquer dia, com qualquer palavra, muitas vezes já nem distingo a associação. Surge de dia e de noite, quando trabalho ou descanso, surge e deixa-me paralisada, de dôr, de saudade, de incapacidade de controlar o amor que me falta. É dôr, é escuridão, é estar perdida de tanto te "encontrar" em sensações etéreas que desejo eternas. Já desespero na tua ausência, sobrevivo estes dias colados uns aos outros sem esperança nem paixão. Sobrevivo-os sem desejo sequer. Sobrevivo à dôr porque afinal de contas a amo.. amo cada momento em que pelo menos sinto algo, ainda que seja esta dôr. Dôr aguda no meu peito, aguda e perturbadora, que povoa o meu interior. Ainda que tanto doa, dor que não perdoa, amo-a desde que me mantenha ligada a ti. Amo-te a ti, sempre e para sempre, mãe.
Tuesday, February 12, 2008
Sonhei contigo...
Sonhei contigo... e foi como se nunca me tivesses aqui deixado. Esta noite sonhei contigo! Estiveste comigo, no escuro do quarto em horas de confusão entre insónia e sonho. Estiveste comigo e conversámos baixinho nas horas em que julguei estar acordada e afinal dormia. Sonhei que falaste com a tua voz de mãe, calma, serena e confiante. Falaste comigo como se nada tivesse acontecido, falaste com naturalidade e paz, conversámos sobre a Inês e como anda endiabrada. Falaste comigo como se nada fosse e respondi-te da mesma forma... e só de manhã me apercebi do extraordinário da nossa conversa... já que não tinhamos nenhuma há mais de um ano. Sonhei contigo, mãe, mas sonhei contigo tranquila, sem ansiedade nem estranheza, sonhei contigo como tu eras, a minha mãe.
De manhã tive de te ir visitar. Acho que precisava de deixar de pensar no sonho e constatar a realidade do pesadelo. Mantens-te lá debaixo daquelas malfadadas pedras, mantens-te inerte, não me respondes quando lá estou... não me respondes como no sonho... lá não ouço a tua voz. E então, não consigo deixar de pensar que estiveste comigo esta noite, não consigo. Só me apetece voltar a adormecer e esperar que venhas conversar comigo outra vez. Vens? E da próxima vez, por favor abraça-me! Não sabes as saudades que tenho do teu abraço... Ai, que saudades!
Este sonho foi um presente, o melhor que poderia ter tido hoje... faz hoje 4 anos que fui mãe e tu, avó. Faz hoje 4 anos que olhaste para a Inês, que deixei de ser "a menina", que mais uma vez me amaste e mo fizeste sentir com todo o calor que emanava do teu olhar e do teu toque... e já passaram quase 14 meses desde que o calor não voltou a mim... cada dia estou mais fria.
De manhã tive de te ir visitar. Acho que precisava de deixar de pensar no sonho e constatar a realidade do pesadelo. Mantens-te lá debaixo daquelas malfadadas pedras, mantens-te inerte, não me respondes quando lá estou... não me respondes como no sonho... lá não ouço a tua voz. E então, não consigo deixar de pensar que estiveste comigo esta noite, não consigo. Só me apetece voltar a adormecer e esperar que venhas conversar comigo outra vez. Vens? E da próxima vez, por favor abraça-me! Não sabes as saudades que tenho do teu abraço... Ai, que saudades!
Este sonho foi um presente, o melhor que poderia ter tido hoje... faz hoje 4 anos que fui mãe e tu, avó. Faz hoje 4 anos que olhaste para a Inês, que deixei de ser "a menina", que mais uma vez me amaste e mo fizeste sentir com todo o calor que emanava do teu olhar e do teu toque... e já passaram quase 14 meses desde que o calor não voltou a mim... cada dia estou mais fria.
Tuesday, January 15, 2008
Lealdade
Porque o tempo passa por nós e já não por ti, porque foste onde nos e impossível alcançar-te, porque partiste cedo e nos deixaste imcompletos, porque tudo ficou por dizer no curto espaço de tempo que tiveste, porque o meu amor foi modificado mas não interrompido, porque a falta que me fazes é diária, porque fecho os olhos e vejo o teu rosto, porque me deito sozinha e penso em como te aconchegavas em mim quando era pequena, porque foste o que de mais leal tive na vida... não posso deixar de me sentir destroçada com o que aconteceu com a tua imagem, com a tua memória, com o que era suposto ser sentido mas não foi. As mentiras que deixadas na tua campa foram rapidamente descobertas e passaram de conforto a desilusão e de desilusão ao total isolamento. Subitamente deixei de ser alguém, subitamente tornei-me numa formiguinha à face da Terra à espera que me pisem.
Afinal de contas não somos nada, nada. Não foram suficientes anos os que viveste, os que trabalhaste e principalmente os que amaste e cuidaste para seres inesquecível e intocável. Não foram suficientes os sacrifícios que fizeste, o tempo que cedeste, a vida que partilhaste para merecer lealdade. Pelo menos lealdade... Esperei que pelo menos houvesse para contigo lealdade. Mais uma vez, falhei.
Afinal de contas não somos nada, nada. Não foram suficientes anos os que viveste, os que trabalhaste e principalmente os que amaste e cuidaste para seres inesquecível e intocável. Não foram suficientes os sacrifícios que fizeste, o tempo que cedeste, a vida que partilhaste para merecer lealdade. Pelo menos lealdade... Esperei que pelo menos houvesse para contigo lealdade. Mais uma vez, falhei.
Sunday, December 23, 2007
Num ano tudo mudou...

Passou um ano e tudo mudou: o frio tornou-se mais frio, o calor menos quente, o sol já não brilha e o sorriso exige esforço; o abraço já não abriga, o beijo nunca mais trouxe o teu cheiro, a casa já não é lar. Tudo mudou: as saudades são cada vez maiores, o pesar de saber que NUNCA MAIS te vou ver é crescente e sinto-me cada vez mais isolada, mais só, mais pequena, mais triste. Tudo mudou desde que há um ano deixei que a terra te engolisse e fiquei petrificada a assistir ao desmoronar do meu mundo.
Friday, November 30, 2007
Vou chorar
Hoje vou permitir-me chorar. Vou escolher um canto frio e escuro e vou permitir-me afundar nesta tristeza e solidão em que tudo se tornou. Vou aquecer-me nestas lágrimas e lembrar-me uma vez mais de ti, de te ver sorrir e do calor que sentia sempre que me aproximava do teu corpo, sentindo já a tua alma. Hoje vou permitir-me chorar, vou fazê-lo com gosto, vou gozar este pranto que me humaniza de novo e faz perder a carapaça que arrasto comigo. Vou chorar, sim, vou mesmo, vou chorar e gritar para dentro esta angústia de finalmente acreditar que não mais te vou ver. Sim, vou chorar, vou chorar com fervor, vou perder a compostura de quem quer ter o poder de controlar o incontrolável, o decorrer de uma vida que se sente estar a perder. Vou ficar aqui fechada na minha dor, nesta casa sem calor, neste canto onde nada me toca a não ser a loucura de saber-me para sempre perdida, sem um abraço nem amor. Vou chorar os dias que desperdiço, que não vivo nem sinto, os dias que correm tão secamente que já nem os conto. Vou chorar tudo o que me apetece e ninguém cá vai estar para sequer me ouvir.
Saturday, November 10, 2007
o peso do Mundo

Ando com o peso do Mundo aos ombros, não tenho quem o reparta comigo agora. Há muito tempo que o carrego mas agora sinto-o em cada célula do meu corpo. Ando com o peso do meu Mundo aos ombros e com a menina pela mão, a que olha para mim como se fosse super-mulher e segue a meu lado acrescendo o peso mas aliviando a dôr. Receio não a conseguir iludir o suficiente e deixá-la por vezes receosa de que o peso recaia sobre nós. Não finjo o suficiente e é ela quem mais testemunha os meus momentos de fraqueza. Este peso que assenta sobre os meus ombros sempre cá esteve mas foi temporariamente suprimido pela tua força, pelos teus ombros, pela segurança com que vias o meu futuro. Não há certezas agora, não há certezas em relação a nada, o que era incerto mantém-se e o que era certo já não o é. Certa estou de que enquanto viva carregarei este peso sobre os ombros e só mesmo o tempo o poderá aliviar.
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