Monday, April 23, 2007

Sombrio e ameaçador


Não tenho estrutura. Como é que fui desmoronar assim, tão irreversivelmente? Fui demolida, arruinada, fiquei sem o que havia de melhor em mim. Todos os dias finjo estar inteira, numa só peça, ergo a minha cabeça, mas os joelhos tremem-me e as mãos desobedecem. Afinal quem era eu... já nem me lembro. Era a tua menina e não serei mais a menina de ninguém. Porque demoras tanto a receber-me nos teus braços? Porque é que te esqueceste de mim, mãe? Porque é que apesar do meu esforço não te consigo rever aqui e sentir-me novamente a mim?
Estou insaciável, preciso de um milhão de pessoas para colmatar a tua ausência e, nada nem ninguém o consegue... milhões e ziliões de criaturas que não farão uma de ti. Alimento-me delas, retiro-lhes o melhor, substituo umas por outras, junto-as, divido-as, somo e multiplico mas não obtenho o que preciso. Vou seguindo nua e fria, desestruturada e vazia, neste caminho sombrio e ameaçador que não me leva a lado nenhum.

Friday, April 13, 2007

Um... dois... três...


Todos os dias são dias sem ti. Todos os dias te quero aqui. Todos os dias são noites em que o teu colo me falta e a minha alma te chama. Todos os dias são lágrimas que caem.. que caem sem me abandonar nem deixar o meu rosto secar. Todos os dias... ai, todos os dias que ainda me faltam.

Saturday, April 7, 2007

São de pedra


Tu não és aquela pedra que escolhi, não sorris como naquela fotografia. Tu és mais, és calor, uma côr, uma luz e uma canção. Tu és assim, minha mãe, meu amor, meu coração. Não estás ali, nem mesmo aqui, não sei de ti, não te encontrei. Dizem que sou tu, que sou assim também. Mas não sou...
Pedras são os outros, frios, duros e impenetráveis. E em breve o serei, porque me levaste tudo e me deixaste menina e mãe, sabendo que sem ti nada sei.
Visito a pedra à espera de te encontrar um dia, quente e sorridente e que me abraces como fazias, fundindo-me em ti e deixando que seja outra vez tua filha, teu fruto, teu amor. Deixa-me entrar no teu útero e esquecer a minha dôr.

Friday, March 30, 2007

Sinto-me ir


Já não sou quem fui, sou o que ficou de mim... a mim, sinto-me ir.
Sinto-me ir devagar, fingindo que não me vejo sair. Vou ficar a fingir.
Cá ficarei, sem parte de mim. Vou ficando, desejando partir.
Não sei o que me poderá mais trair. Nada tenho, já parti.
Saí por debaixo da porta, voei pela janela. Não me encontras, já não estou aqui.
Fui para longe, para de onde saí. Não voltarei, nada tenho aqui.
Aqui fica quem não sou, quem nunca quis ser. Ficam as cinzas, os restos de mim.
Pálida e cinzenta sombra sou, a chama perdi, quando te perdi a ti.

Friday, March 23, 2007

Noite


Está sempre noite desde que partiste.
O sol vai e vem sem deixar passar luz nem calor.
A lua tem sido companheira e as estrelas que andas a fazer para a menina, por mim já chegam, podes voltar. Fico satisfeita com as nuvens, cobrem o céu e não permitem sonhar mais além, sonhar com o invisível e com o inexistente, deixam tudo ser mais verdadeiro, cru e cruel. São elas que me lembram que nada ficou, que sou só eu e que ninguém realmente me vê porque entre cada um de nós há uma interposição de neblina que torna evidente a distância e a pouco importância que temos para os outros.

Está sempre noite desde que partiste.
Nem quero que o dia chegue porque vou ainda mais sentir a tua falta não tendo o teu sorriso e o teu abraço, o teu bom dia, o teu regaço, o teu dom de me fazeres feliz.

Está sempre noite desde que partiste e não haverá dia até voltares.

Monday, March 19, 2007

Grito


Quero gritar ao Mundo a minha dor. Quero fazê-lo tremer no meu tormento. Quero apagar o sol e fazer perdurar a escuridão. Quero queimar a minha roupa e ser EU tão só, nua e fria como quanto me sinto. A roupa não me serve de aconchego nem abrigo sem estares comigo, mãe. Quero gritar ao Mundo esta injustiça, quero dizer-lhe como o odeio, vazio e cruel que é. Quero gritar aos felizes que o pior está para vir, que tudo muda num segundo, que a perda é eterna e com ela vem o agoniante vazio.
A ti mãe, quero sussurar ao ouvido o que te amo e amarei, como me salvaste a vida, perdendo anos teus. Quero beijar-te o rosto e os cabelos, abraçar-te como nunca e pedir-te, suplicar-te que voltes para nós. Que voltes a iluminar-me, aquecer-me, aconchegar-me e acolher-me nos teus braços. Pequena que és, foste sempre enorme para mim.
Amo-te...

Thursday, March 15, 2007

Essência de mim


Sou filha de mãe para sempre perdida,
filha de pai que ama sentida,
mãe de uma filha sem pai nesta vida.

Ando por cá, de mim esquecida...